3.5.06

A BELEZA

Miguel Torga


Não tens corpo, nem patria, nem familia,
Não tens curvas ao jogo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te roi.
Es a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
Es a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
Es aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
Es a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte ,
Ou em simples verdade.
Es o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
Es um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
Es o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
Es a beleza, enfim. Es o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem patria, sem familia,
Tudo reposa em paz no teu regaço.

Miguel Torga