1.4.06

AMO-TE TODOS OS DIAS

Gonçalo Nuno Martins


Eu quero olhar-te nos olhos,
E ver-te afastar delicadamente o cabelo da cara
Enquanto encostas a cabeça à ombreira da janela da sala,
E agarrar as tuas mãos febris
Com as minhas mãos geladas
E dizer-te que as nossas mãos
São asas com que podemos voar
Para lá da pequenez desta prisão crepuscular,
E mergulhar na magnitude do mistério.
E ouvir-te dizer que voar é impossível
E dizer-te que entre nós não há impossíveis,
E ver-te procurar a serenidade num cigarro
E esconder-te o isqueiro debaixo da manta
Cor-de-fogo que cobre o sofá velho,
E ver-te ir à última gaveta do móvel de carvalho
E acender o teu cigarro com um dos infindáveis
Isqueiros que lá guardas,
E ir à última gaveta da tua alma
E de lá arrancar o teu enigmático sorriso.
E fingir que não percebo que enquanto nos beijamos
Me roubas, maquiavelicamente, o comando da televisão,
E falar-te acerca da rapariga das tranças ruivas
Que aparece, na magia dos meus sonhos,
Sentada no banco do jardim da lua,
E sorrir aos teus ciúmes de alguém que não existe,
E fingir que estou a tossir mais que aflito
E ver-te esmagar bruscamente o cigarro contra o cinzeiro
E refugiares-te no chá de cereja,
E ouvir-te elogiar as chávenas rubro incandescente,
Que trouxeste da viagem ao México,
Só porque sabes que não gosto daquelas chávenas,
E ver-te despir para tomar banho
E tocar-te como quem lê um poema em braille,
Como se o teu corpo fosse, simultaneamente,
Uma encruzilhada onde me perco
E um mapa onde me volto a encontrar,
E reter-te por séculos nos meus braços,
E fugir quando alcanças o chuveiro ameaçador,
E esperar ansiosamente que termines o teu banho
E beijar o calor da tua pele húmida quando regressas,
E sorrir ao olhar falsamente ressentido
Que lanças desde o sofá onde estás deitada
Com o cabelo molhado,
E ver-te ceder ao peso das pálpebras
Quando as horas pesam séculos sobre os olhos,
E adormecer junto a mim,
E ser percorrido pela profunda paz
Que emerge da perfeição daquele momento,
Perfeição que, felizmente, não tens:
Gosto de ti, não apesar dos teus defeitos,
Mas com os teus defeitos. Todos.
E tocar-te uma vez mais,
Mas querer também deixar-te dormir,
E acordar antes de ti,
E ir à padaria buscar pasteis de nata
E ver-te deliciar com eles
Sem te importares de semear a cama com migalhas
Enquanto eu me delicio com o teu sorriso,
E ver-te beber sumo de laranja
Segurando o copo com as duas mãos,
E pressentir que te conheço há sete vidas
E que afinal tudo isto faz sentido
Porque tu existes,
E perceber a sorte que tive em te encontrar
No meio de seis biliões de seres humanos.
Eu quero olhar-te nos olhos,
E…

Gonçalo Nuno Martins

5 Comments:

Blogger Nilson Barcelli said...

Obrigado pela tua visita e comentário.
Tens poesia escrita por ti?
Abraço.

3:18 AM  
Blogger Amante da Poesia said...

Olá nilson. Eu até escrevo umas coisitas de vez em quando, mas escrevo muito mal.
Eu é que agradeço a tua visita.
Volta sempre.

2:27 PM  
Blogger A COR DO MAR said...

Eu adoro este menino Poeta.

Beijo para ti neste Jardim da Poesia*

10:47 AM  
Anonymous Anonymous said...

That's a great story. Waiting for more. » »

12:23 PM  
Anonymous Anonymous said...

Belíssimo texto. Amei a história.

Caro Gonçalo siga o seu coração e lute por esse amor, porque um amor como esse (se existe realmente, merece ser vivido).

Não ligue ao que dizem os outros. Ame-se e ame quem o ama em silencio, quiçá que tem receio de "X" ou "Y", mas ame. A vida não é só diversão, não é só investimentos. É uma forma de crescer, de deixar a sua marca no mundo, mas e o Amor?
AME! Ouça o seu coração! Porque uma vida sem amor é uma vida desperdiçada.
Agarre-se a esse amor e viaje para lá dos seus sonhos... abarque a realidade.

E ame... AME!

6:23 AM  

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