11.2.06

ADEUS

Eugénio de Andrade


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

6 Comments:

Blogger Claudia Perotti said...

Uia! Tocou-me fundo esse poema!
Lindo, triste e verdadeiro!
Bom final de semana!

Beijinhosssss

9:48 AM  
Blogger Papo-seco said...

Não foi o "teu" adeus, pois não???

é que tarda um poema novo

:)

2:41 AM  
Anonymous Anonymous said...

foi perfeito!
parabéns

viviana

7:37 PM  
Anonymous Anonymous said...

best regards, nice info » »

12:17 PM  
Anonymous Anonymous said...

Keep up the good work »

7:42 AM  
Anonymous Anonymous said...

Where did you find it? Interesting read » »

5:47 PM  

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